Me chamo tango. Ganhei este nome de um amigo na juventude, por ser um exímio dançador de tango. Só que até hoje não encontrei parceira a minha altura, então não pude mostrar minha arte para ninguém. Só Pedro, o amigo, foi quem me viu bêbado fazendo alguns passos na rua. Já que não possuía um nome fixo, definitivo, nem identidade, Pedro me batizou. Hoje, sou um professor de sociologia decadente que vive num mundo decadente, longe do México, minha terra natal. Nasci no México, ruazinha simpática e suja da cidade de Xapecó, município localizado no velho oeste catarinense. E isso faz de mim um chicano mucho loco, cabrón! Tenho um cadillac preto quase no fim da vida, onde carrego alguns livros, minha guitarra e o que resta da minha vida. Sou jornalista também, mas só nas horas vagas, além de poeta e pistoleiro. Tenho alguns furos de bala pelo corpo e alguns riscos de faca (e isso só veio a contribuir com minha beleza única). Gosto de vinho, cerveja e rum, mas também bebo tequila contrabandeada e alguma cachaça da boa. Algumas pessoas tem medo de mim, outras, simplesmente desviam quando eu passo. Talvez alguém me ame. Tinha um cão que me amava, mas o bicho morreu debaixo das rodas de um Fenemê, dirigido por um verme, gordo e fedido. Certo dia encontrei o verme num boteco e dei fim a sua medíocre e curta trajetória. No meu jornalismo das horas vagas, me dedico a publicar textos sobre bandas de rock e outros ritmos que não sejam brasileiros. MPB só quando estiver no inferno e o diabo for mais forte do que eu e me obrigar. Pois se tentar me convencer, vai desistir, eu garanto! Outro dia um sujeito da capital me escreveu e mandou um material do Mamonas Assassinas (fotos e um espécie de texto), para que eu publicasse. Me neguei. Já encheu o saco essa coisa dos Mamonas. Volta e meia a televisão faz a ressurreição dos mortos, e pelo menos uma vez por ano os Mamonas aparecem com aquela chatice que já perdeu a graça (se é que teve alguma graça algum dia). Nunca ri com os ditos-cujos. Muito menos chorei quando morreram na queda daquele avião. Uma típica, tradicional e nada inovadora trajetória no mundo das estrelas de rock (já apagadas): músicas alegrinhas para vender como se fossem picolés em domingos ensolarados na praça central. Humor nada inteligente e um visual de animação de auditório televisivo de domingo à tarde, ‘a la’ Silvio Santos. Jovens e bonitos, no fim, uma morte trágica (nada comparado ao terremoto recente do Haiti, mas...). Dez anos depois ainda alguém insiste em dizer que foi a melhor banda do Brasil. Respondi ao sujeito que não iria escrever nada, muito menos publicar algo dos caras, e quando ele perguntou porque, reiterei: ‘Mamonas é uma bosta!’ ‘Please, deixem os mortos descansarem em paz! Gracias!’ Me recuso também a falar do caso cancerígeno da Hebe. Boa sorte pra ela! Depois ainda recebi uma sugestão, para falar do Big Brother Brasil. Maldito seja quem sugeriu isso. O jornal medíocre em que publico alguns textos aceitou a sugestão e me pediu que escrevesse algo a respeito. Fiz. Mas da minha maneira. Se não fosse pela grana, jamais teria feito. Às vezes fico pensando, acho que teria sido melhor se George Orwell nunca tivesse escrito o 1984. Gosto deste livro, mas ele foi dar a deixa para um monstro imundo nascer. E aí está o BBB. Agora além dos branquinhos, tem que ter um negro no meio, alguns gays, se tiver uma asiática melhor, e a novidade, uma gay mulher. Nada contra (muito pelo contrário, adoro mulheres gays), mas a intenção de abraçar o maior público possível já é descarada. E o discurso que fede é o de que isso é para abrir espaços para as diferenças. Diferenças? A televisão fazendo isso? Ah, conta outra! A maldita ideologia televisiva sempre excluiu e tratou ‘os diferentes’ como inferiores, agora me vem dizendo: ‘viva as diferenças!’. Pretos, putas, pobres, asiáticos, índios, gays e até chicanos como yo, sempre foram reduzidos frente aos brancos-ocidentais-judaico-cristãos pela televisão, e agora me vêm com essa?! Nem vou falar das telenovelas. Até o cinema babaca-hollywoodiano-norte americano (onde o preto sempre morre - ou morre por primeiro, quando não é o vilão da estória, onde o gordo é sempre o paspalhão-comilão, os gays são sempre os exagerados idiotas), não são tão hipócritas assim. Enfim. Só sei que estou com os dias contados e os contratos cortados. Me fudi! Mas não foi pelo Mamonas, nem pelo Big Brother nem por nada dessa merda toda. Foi por ser sincero. Neste mundo quadrado onde só a cerveja desce redonda (mas não a skol), é duro ser sincero. Por isso ando armado. Dentro do meu alazão negro (que é meu cadillac quase morto), carrego comigo algumas bananas de dinamite e um três oitão carregado até os dentes. Já que nunca tive um nome familiar mesmo, nunca tive conta em banco nem aluguel ou IPTU para pagar, não tenho do que me esconder e porque poupar aquilo que não gosto? Um chicano que só tem uma virtude: dançar tango embriagado quando ninguém está perto para ver, não merece estar entre os escolhidos. Entre os cidadãos de bem, que pagam seus impostos em dia, votam na direita e querem uma cidade limpa e homogênea. Estou entre os malditos, justamente por não ter um nome e nem um sobrenome que sirva para dar o nome de uma rua qualquer. Sou como um cão de rua. Meio louco, meio torpe, meio sem rumo definido. Livre! Baby, se ver um cadillac morrendo, se arrastando por aí, alguma matéria de jornal destruindo algum ídolo ou mesmo uma briga de bar, pode ser que seja eu.
Moro em Xapecó City, na rua México, uma ruazinha simpática e esquecida, onde o único aroma de incenso é o cheiro da pólvora, e onde muchachas muy guapas y calientes bailan hambrientas (para a alegria dos turistas). Onde um dia dancei tango, bêbado e feliz (e ninguém viu, só o Pedro, e que hoje está morto), contente por não ter um nome atrás de mim que ornamente uma rua qualquer desta cidade imóvel.





