sábado, 16 de janeiro de 2010

O mais anônimo pistoleiro do velho este

Me chamo tango. Ganhei este nome de um amigo na juventude, por ser um exímio dançador de tango. Só que até hoje não encontrei parceira a minha altura, então não pude mostrar minha arte para ninguém. Só Pedro, o amigo, foi quem me viu bêbado fazendo alguns passos na rua. Já que não possuía um nome fixo, definitivo, nem identidade, Pedro me batizou. Hoje, sou um professor de sociologia decadente que vive num mundo decadente, longe do México, minha terra natal. Nasci no México, ruazinha simpática e suja da cidade de Xapecó, município localizado no velho oeste catarinense. E isso faz de mim um chicano mucho loco, cabrón! Tenho um cadillac preto quase no fim da vida, onde carrego alguns livros, minha guitarra e o que resta da minha vida. Sou jornalista também, mas só nas horas vagas, além de poeta e pistoleiro. Tenho alguns furos de bala pelo corpo e alguns riscos de faca (e isso só veio a contribuir com minha beleza única). Gosto de vinho, cerveja e rum, mas também bebo tequila contrabandeada e alguma cachaça da boa. Algumas pessoas tem medo de mim, outras, simplesmente desviam quando eu passo. Talvez alguém me ame. Tinha um cão que me amava, mas o bicho morreu debaixo das rodas de um Fenemê, dirigido por um verme, gordo e fedido. Certo dia encontrei o verme num boteco e dei fim a sua medíocre e curta trajetória. No meu jornalismo das horas vagas, me dedico a publicar textos sobre bandas de rock e outros ritmos que não sejam brasileiros. MPB só quando estiver no inferno e o diabo for mais forte do que eu e me obrigar. Pois se tentar me convencer, vai desistir, eu garanto! Outro dia um sujeito da capital me escreveu e mandou um material do Mamonas Assassinas (fotos e um espécie de texto), para que eu publicasse. Me neguei. Já encheu o saco essa coisa dos Mamonas. Volta e meia a televisão faz a ressurreição dos mortos, e pelo menos uma vez por ano os Mamonas aparecem com aquela chatice que já perdeu a graça (se é que teve alguma graça algum dia). Nunca ri com os ditos-cujos. Muito menos chorei quando morreram na queda daquele avião. Uma típica, tradicional e nada inovadora trajetória no mundo das estrelas de rock (já apagadas): músicas alegrinhas para vender como se fossem picolés em domingos ensolarados na praça central. Humor nada inteligente e um visual de animação de auditório televisivo de domingo à tarde, ‘a la’ Silvio Santos. Jovens e bonitos, no fim, uma morte trágica (nada comparado ao terremoto recente do Haiti, mas...). Dez anos depois ainda alguém insiste em dizer que foi a melhor banda do Brasil. Respondi ao sujeito que não iria escrever nada, muito menos publicar algo dos caras, e quando ele perguntou porque, reiterei: ‘Mamonas é uma bosta!’ ‘Please, deixem os mortos descansarem em paz! Gracias!’ Me recuso também a falar do caso cancerígeno da Hebe. Boa sorte pra ela! Depois ainda recebi uma sugestão, para falar do Big Brother Brasil. Maldito seja quem sugeriu isso. O jornal medíocre em que publico alguns textos aceitou a sugestão e me pediu que escrevesse algo a respeito. Fiz. Mas da minha maneira. Se não fosse pela grana, jamais teria feito. Às vezes fico pensando, acho que teria sido melhor se George Orwell nunca tivesse escrito o 1984. Gosto deste livro, mas ele foi dar a deixa para um monstro imundo nascer. E aí está o BBB. Agora além dos branquinhos, tem que ter um negro no meio, alguns gays, se tiver uma asiática melhor, e a novidade, uma gay mulher. Nada contra (muito pelo contrário, adoro mulheres gays), mas a intenção de abraçar o maior público possível já é descarada. E o discurso que fede é o de que isso é para abrir espaços para as diferenças. Diferenças? A televisão fazendo isso? Ah, conta outra! A maldita ideologia televisiva sempre excluiu e tratou ‘os diferentes’ como inferiores, agora me vem dizendo: ‘viva as diferenças!’. Pretos, putas, pobres, asiáticos, índios, gays e até chicanos como yo, sempre foram reduzidos frente aos brancos-ocidentais-judaico-cristãos pela televisão, e agora me vêm com essa?! Nem vou falar das telenovelas. Até o cinema babaca-hollywoodiano-norte americano (onde o preto sempre morre - ou morre por primeiro, quando não é o vilão da estória, onde o gordo é sempre o paspalhão-comilão, os gays são sempre os exagerados idiotas), não são tão hipócritas assim. Enfim. Só sei que estou com os dias contados e os contratos cortados. Me fudi! Mas não foi pelo Mamonas, nem pelo Big Brother nem por nada dessa merda toda. Foi por ser sincero. Neste mundo quadrado onde só a cerveja desce redonda (mas não a skol), é duro ser sincero. Por isso ando armado. Dentro do meu alazão negro (que é meu cadillac quase morto), carrego comigo algumas bananas de dinamite e um três oitão carregado até os dentes. Já que nunca tive um nome familiar mesmo, nunca tive conta em banco nem aluguel ou IPTU para pagar, não tenho do que me esconder e porque poupar aquilo que não gosto? Um chicano que só tem uma virtude: dançar tango embriagado quando ninguém está perto para ver, não merece estar entre os escolhidos. Entre os cidadãos de bem, que pagam seus impostos em dia, votam na direita e querem uma cidade limpa e homogênea. Estou entre os malditos, justamente por não ter um nome e nem um sobrenome que sirva para dar o nome de uma rua qualquer. Sou como um cão de rua. Meio louco, meio torpe, meio sem rumo definido. Livre! Baby, se ver um cadillac morrendo, se arrastando por aí, alguma matéria de jornal destruindo algum ídolo ou mesmo uma briga de bar, pode ser que seja eu.
Moro em Xapecó City, na rua México, uma ruazinha simpática e esquecida, onde o único aroma de incenso é o cheiro da pólvora, e onde muchachas muy guapas y calientes bailan hambrientas (para a alegria dos turistas). Onde um dia dancei tango, bêbado e feliz (e ninguém viu, só o Pedro, e que hoje está morto), contente por não ter um nome atrás de mim que ornamente uma rua qualquer desta cidade imóvel.

o canto espetacular de um século


nada além de nada

tudo, é muito querer

e eu quero pouco

só o suficiente para poder beber

beber o tempo, beber o veneno necessário

para meu próprio fim

depois alguém ainda dirá:

‘foi-se um homem que soube viver’

sim, eu soube

vivi o quanto pude

quase sempre torpe

quase sempre vivo

mas eu

sempre eu

o próprio sangue do tempo

e outra vez alguém também dirá:

‘um homem que viveu e morreu errado’

sim, eu, sempre eu

errado, torto

mas sempre aqui

no osso duro da realidade

até que o século passe

e tudo vire pó outra vez

No instante de um suspiro...

justamente agora. sinto que o mundo me abandona outra vez. ou sou eu quem abandona o mundo? já não sei. há muita confusão aqui pelo lado de dentro. tenho felicidades, amplas e irrestritas. mas mesmo assim, já me disseram que tenho uma tristeza no olhar. nem depressão nem bipolaridade ou algo assim. tristeza. a velha e real tristeza do deslocamento. do bloco intacto que não encontra um lugar bom o suficiente para seu descanso. antes mesmo do romantismo, do mal secular. a tristeza que se resume em dor. a dor dos que vivem intensamente e sem intenção. a dor da história. a dor que é a tristeza, mais antiga do que a dor dos românticos ou dos góticos. nada tão novo. talvez esquecido. mas sou forte. a dor, a tristeza, transformo em possibilidade. possibilidade de vida. CAOS. amor louco. rebeldia incontida e libertadora. tento. nem sempre consigo. ou quase nunca. mas tento. e tentar é mover-se. MOVIMENTO. abraço o improvável e me despenho no abismo das coisas. ainda não cheguei ao fundo. ainda bem! continuo. caio em mim e descubro que não sou raso. isso me alegra por alguns instantes. vejo o mundo como os olhos que sou. se fosse diferente, não sofreria. se fosse diferente, não viveria. existir é pouco para quem tem a força em si, para, pelo menos insistir nas paixões errantes, no pecado. pecar é não se acomodar. errar para descobrir o que há além das paredes que circundam o homem, em sua medíocre e previsível existência. nisso, posso ir a qualquer lugar. ou a lugar nenhum. só o ato de ir, já é um ato valioso em si. e mover-se é necessário para continuar sendo. - agora me beije baby, pois é só o que nos resta nesta noite em que fomos uma só carne e bebemos do mesmo suor...

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

2010

Presente...

no entanto respiro... mais um dia quente. verão chapado. foi um ano de luta, sangue e suor, lágrimas e risos. algumas conquistas, e a guerra continua. armado por todos os lados, divago entre uma poesia e outra, entre um trago e outro, entre uma canção e outra. o mundo sofrendo com o desleixo de parte significativa da população: políticos, grandes empresários e rebanho. não me acostumo. o rebanho ainda pasta, alheio a tormenta que passa ao lado. paz no sono, em descanso. paz: discurso hipócrita! guerra: estou no campo de batalha e daqui não pretendo sair tão cedo. talvez seja arrogância minha, orgulho (não sei do que – talvez dos meus pais)... não do país. sonhos? claro que os tenho (ainda), e renovados, senão já havia me pendurado em alguma árvore por aí. mas, como sou teimoso, curioso e não me dou por vencido, continuo. já disse isso por aqui alguma outra vez: sou homem de guerra. não gosto do branco da paz, uniformizado, conformado. prefiro o vermelho do sangue, do sexo e do amor. além da fronteira há um lugar extraordinário que espera ser explorado. e eu já estou nele. vejo a distância com olhos presentes. o futuro? não existe e o passado, passou. lê-lo, ao menos tentar compreende-lo, para melhor significar o presente. e é só ele que existe, o presente. e é nele que vivo, sobrevivo-transpiro. nele estamos. o futuro está por vir, e toda vez que ele chega, já não existe mais. o futuro é apenas uma projeção. pessoas com as quais aprendi algo passaram por mim. algumas passaram só por passar. outras, nem passaram. muitas, ainda estão por passar, e outras ainda, nunca passarão. algumas desistências... novas paixões. eu assisto tudo com olhos de falcão. alço meu vôo, e prossigo. nunca como espectador. sou parte do jogo. entrei para, se perder, pelo menos jogar. tive coragem e causei estrondo. encontrei-me a mim mesmo quando procurava outro. e encontrei outros quando procurava a mim mesmo. e assim é a vida: ‘gostosa e divertida/entrei nessa corrida/pra ver aonde vou chegar’. atravessei dias e noites ébrio, lúcido e com penas e vontades. tive medo e coragem. aprendi. ensinei. algo se eternizou: ‘Pensar nas coisas eternas que não duram mais que um dia’. um dia pode ser mais eterno do que a própria eternidade. e foi. só espero que algumas coisas continuem, como naquela noite em que fomos um só, onde nossos sorrisos brotavam dos nossos lábios, como uma planta nova e alegre brota em solo fértil. nós, juntos, caminhando pelo espaço, transcendendo o óbvio, extrapolando o habitual, compondo canções clandestinas. entre tragos e poemas, aromas da carne, beijos molhados e peles tremulas. ousados com mundo que nos ousa. estamos vivos. somos imperfeitos sós. juntos, um pouco mais que isso. ‘a felicidade só existe quando compartilhada’. nossos sorrisos serão plenos... e tudo pode ser mais verdadeiro se quisermos e lutarmos por isso. estamos lado a lado, mãos dadas, andando com o vento por aí, em meio a tempestade que nos saúda...

* para vocês que insistem em cantar.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Casa Vazia (leve o que puder...)

25 vezes Jussara

Vejo as cores do mundo de longe. Tudo passa ao meu redor: carros, pessoas, cães e Jussara. Jussara já foi minha... em sonho [ou pesadelo. Sou filho do vento, dizia minha avó. Ela deve ter lido isso em algum livro que tratava de algum tema indígena. Mas isso não tem nada haver com o que acontece neste quarto. A cama não é um bom abrigo quando se está só. De um lado ao outro, há um vazio, intolerável. Jussara já esteve aqui. Naquela época, a casa era cheia. Cheia do sorriso de Jussara. Cheia da voz de Jussara. Cheia do nome de Jussara. Jussara tinha dois nomes: Ju e Sara. Suas amigas e amigos assim a chamavam. Ju ou Sara. Eu: Jussara. Acho que ela não agüentou meus porres e minha dor pelo mundo. Jussara dizia que aquilo não era eu, e que minha dor também não era minha. Dizia que o que eu sentia era a dor dos outros. Eu nunca soube se foi isso que realmente fez Jussara me deixar. Conheci Jussara numa noite de verão. Jussara era namorada de Rita que era irmã do J. que era amigo meu. J. tinha uma banda de blues que tocava toda sexta num bar que ficava numa esquina aqui dessa cidade fantasma. Um dia, saímos eu e J. para beber cerveja por aí. E foi neste dia que conheci Jussara. Jussara e Rita estavam sentadas numa mesa nos fundos do bar. Eu e J. jogávamos sinuca, bebíamos cerveja e rum, e fumávamos charutos paraguaios. Depois do jogo, J. me apresentou Rita... e Jussara. Rita não foi muito simpática, parecia temer algo que mais tarde aconteceu. Jussara sorriu e seus olhos brilharam, acompanhando os meus. Tive uma alegria interna que durou alguns minutos. Minha dor e aflição descansaram por algum tempo. Dias se passaram. Rita e Jussara já não se falavam mais. Estraguei tudo. Jussara disse que não, que já estava largando a Rita. Ela era possessiva e um pouco egoísta, enquanto Jussara, uma mulher extraordinária. Sempre soube que não estava a sua altura. Mas ela dizia que sim. Dizia que me amava, apesar de ainda sentir algo por Rita. Sentimentos são assim, sempre deixam seus vestígios por onde passam. Mas eu estraguei tudo novamente. Mas desta vez para mim. Não sei ao certo o que fiz ou deixei de fazer. Jussara, Jussara, Jussara! Penso que seja esta maldita clausura. Esta maldita falta de sono. Esta maldita fraqueza. Jussara não suportou minha dor, minha carne desgastada esparramada nesta cama velha. Na manha de hoje, pegou suas coisas, me deu um beijo longo, lento e profundo... e saiu. Fiquei com uma lágrima de Jussara salgando minha boca, em silêncio. Totalmente imóvel. Como há duas semanas atrás. Do mesmo jeito. Só e invisível para o mundo. Jussara, também já não me vê mais. E eu, já não tenho a certeza de que realmente existo.

Herman G. Silvani

terça-feira, 24 de novembro de 2009

só tenho que concordar...

O que alguém deve ter para que você o considere um artista?

R: Ser um vivedor. Um escritor é quem escreve, um pintor quem pinta, um vivedor quem vive. Hoje qualquer um é chamado de artista. Um mico de telenovela, uma bichinha de museu, uma puta de revista. Qual quer um que grite pode ser chamado de artista. Conheci pessoas por aí sem ofício algum e no entanto cheias de uma vitalidade extraordinária, para mim são artistas. Note-se que um escritor famoso com o tempo pode degenerar em múmia de eventos sociais ou num babaca da televisão. Já o artista não tem opção, é um fracasso à prova de eternidades.

do livro: Era uma vez o amor
mas tive que matá-lo

Efraim Medina Reyes

domingo, 8 de novembro de 2009

assuntos pertinentes aos profissionais da educ-ação

A saga de um rebelado contra ‘la mala educación’

(uma crítica-comentário de dês-ordem pedagógica, ou, do interesse daquele que leciona e sofre, mas não se entrega)

Em todo caso, não fui eu quem matou a Educação, só estava junto. Não quis ser cúmplice nem nada. Também, porque fui olhar... Droga! Imbecil! Ser professor de ‘cursinho’ não é tão fácil como alguns pensam. Na verdade, no Brasil, ser professor não é nada fácil, seja onde for como for. ‘Eita’ categoria mais mal tratada! E eu, fui escolher bem essa profissão, essa luta, essa empreitada. Agora não tem volta, já que estou nisso, nisso prossigo, quero ver aonde vai dar.

Entre aulas e aulas, fui convidado para dar algumas em uma cidade vizinha, que diferente da minha, ainda mantém o ‘X’ como letra inicial do seu nome. Aí fica fácil, não fica? Então... Se é algo que possuo, no sentido de ter, não de possuir enquanto propriedade privada, ou apenas bem de consumo, mas sim, como instrumento e bagagem, é uma diversidade considerável de material. Independente do nome dado ao material, a verdade é que tenho bastante, e o utilizo nas aulas de literatura, linguagem e redação (sempre que posso: observação importante). São livros e livros, filmes, obras, cds, dvds, etc. No caso das aulas na cidade vizinha da qual me referi já acima, aquela que começa com ‘X’ no nome, o material diversificado e tudo mais, foi ignorado por parte dos alunos de uma única turma com a qual trabalhei. Antes fosse só o material. Bem pontuado: As aulas foram ignoradas. A diretora foi ignorada. A organização da escola foi ignorada. Eu... bem, eu não deixei ser ignorado. E foi aí que a ‘cobra fumou’. Não gosto de chamar a atenção, ainda mais de marmanjo ou marmanja que tem o privilégio de estudar em escola particular com os pais pagando a mensalidade no final do mês. Estes deveriam prezar pela condição que se encontram (e alguns inteligentemente prezam), levando em conta, que muitos que não estão nessa, gostariam, e como! Eu mesmo, ralei para ter minha educação, magrinha! Mas tive. E me esforcei para chegar... Opa! Onde estou agora? Se isso for uma resposta, e é: dando aulas de literatura, construção textual (redação) e linguagem, em cursos, os ditos cursinhos pré-vestibular e ENEM, além de tocar com minha banda de rock volta e meia e escrever e ler poesias por aí, para o que ainda resta da humanidade. E vou dar aulas ainda de Sociologia e História, em breve... Creio.

Sempre estou aberto para novas experiências (mas não levem isso ao pé da letra), e nisso, me construo dia a dia, até o dia do derradeiro suspiro, aquele que não marca data nem local, mas vem, sempre, no final. Nisso, construo minhas aulas, acima daquilo que tenho em mãos e do que as escolas e/ou cursos me passam (apostilhas, livros, dvd’s, etc.). Neste caso da cidade ‘X’, me empenhem, muito, fiz o possível e mais um pouco para criar um ambiente coletivo, onde TODOS pudessem comungar do momento, ou pelo menos com as chances de incorporação iguais. Mas o golpe veio e trouxe consigo o desleixo e falta de respeito, vontade e humildade de ALGUNS alunos. Da parte da Escola, sinceramente, não sei. Tudo muito vago, e é só o que posso dizer. Um professor desamparado pelo sistema, e a escola não me deu respostas a altura, assim como parte desses alunos. A pior turma com a qual já tive o dês-prazer de trabalhar, não fosse alguns alunos de boa vontade e curiosidade mais aguda, com sede de conhecimento e coragem de querer enfrentar o mundo como ele é, duro e complexo. Ouvi, acatei dicas de alunos, não alterei a voz nem o tom ao ponto da injúria, apenas usei o que acredito, o bom senso e o diálogo. Mas a linguagem que parte daqueles alunos conhece é a da punição, ou seja, da nota. E isso, no curso em questão não existe. Fui cobrado: ‘Deve seguir a apostila’. Ok! Fiz. Mas a desconstrução e interlocução não pode parar por isso. Mantive os slides, os livros, a relação entre os vários conhecimentos, o debate, a cultura da colaboração, da interatividade, e tentei, tentei, me centrar mais na apostila. Até que a diretora me ligou dizendo que alguns alunos reclamaram: eu estava atrasado (?), isso relacionado às apostilas. Talvez, estes nem tenham se tocado, por falta de atenção e interesse dos mesmos, que quase tudo de duas apostilas eu já havia passado em slides, e assim mesmo, sempre voltei às apostilas. Aí tive que dizer respeitosamente para a ‘dire’: “Pergunta para esses alunos se eles levam as apostilas na aula!” Eis meus caros! Sempre a mesma coisa: “Ah professor, esqueci a apostila!”. Encaminhei mais de 4 redações para ajuda-los, levando para casa, lendo, fazendo as devidas considerações, e, de 15 a 20 alunos, uns 5 apenas me entregaram alguma redação, e metade deles ainda, fugindo do que eu havia encaminhado e proposto. Então, alguém pode me dizer se sou eu, o professor, o responsável por isso? Só depois fui entender porque naquela turma/escola, haviam passado uns 7 professores de literatura/redação (segundo a própria ‘dire), antes de ‘yo’. Não bastou utilizar da linguagem, do modo de proceder mais informal, adaptado e ligado aos alunos, aos seus modos de comunicação, pois a falta de interesse de alguns, prejudicou outros, na verdade, atrasou, aqueles que realmente estavam (estão), ali para se construir em pessoas mais livres e plenas. Chegou o ponto em que eu tive que escolher, ser um pouco seletivo, para não prejudicar mais aqueles que ali estavam de mãos dadas com a dedicação e vontade de saber mais. A troca é sempre válida quando se há algo para trocar. Agora, milagres (transformações), não acontecem sem terreno propício para tal, e o professor não é nenhum messias. A arrogância, a falta de conhecimento e bom senso de alguns prevaleceu, por algo estar legitimando isso, e este algo não era eu. Mas a vida faz curvas e o mundo gira. Muitos vão lembrar de mim, se vão! Bem ou mal, na hora do ENEM e/ou vestibular. Falando nisso, a escola não levou em consideração, assim como os alunos reclamantes, que o que eu havia tratado nas aulas, grande parte, caiu no ENEM (naquela prova que foi roubada), inclusive o tema de redação. Tiro certo e de um ‘ticano-zapatista-oestino’ rápido no gatilho. Enfim... continua a batalha dos professores-radiantes-produtores contra o império da mesmice-mediocridade-reprodutora.

& Fiat lux...

as portas se abrem e se fecham nos dedos...

Com-cu-rso público, dois mil e nove-mbro

Fazia um tempo que não acordava cedo no domingo, o único dia da semana que um amante da noite tem para dormir dignamente. Dia 08/11, depois de alguma década e tanto, eis que acontece o concurso público para professor do município de Chapecó Estado de Santa Catarina Brasil. Pulei da cama no susto, aproximadamente 6:30h. Tinha que estar as 7:00h na UnoChapecó para encontrar o bloco e sala da prova. Cheguei no ponto. O aglomero já acontecia no acesso. Lá dentro então, ish! Fatos como este me fazem gostar ainda menos da concorrência, do sistema capitalista e de algumas pessoas. Mas... Tudo muito desorganizado. A prefeitura terceirizou o serviço para uma empresa privada não sei d’onde nem porque, mas imagino. A responsabilidade fugiu e levou consigo o bom senso. Já viram cães famintos lutando por um naco fedorento de carne? Parecia. Os nomes não estavam em ordem alfabética nos murais. Aí já viu! Depois de um certo tempo, finalmente encontrei o bloco e a sala. A prova tinha 100 questões, e era dividida em duas. 50 questões cada. A primeira, português (incluindo interpretação de texto), gramática, e conhecimentos gerais. A segunda, 10 questões de matemática e conhecimentos específicos (no meu caso, História), apesar de muitas questões serem de geografia, sociologia e política, isso mesmo, po-lí-ti-ca! A inscrição custou R$ 80,00, o que é muito para um professor em não exercício na área, como eu, e para, ainda, disputar 2 (duas) vagas. 68 inscritos, e eu no meio disso tudo. Não me perdôo. Eu era um cão sarnento, sem raça definida, mas com certa elegância e simpatia que só os cães vagabundos de rua tem, querendo carne também. Mas não mordi ninguém. Esperei e fui de mansinho até pegar meu pedaço. Só o osso restou, mas deu pra uma sopa. A piada, digo, a prova: Um texto meio bagaceiro, tirado, pelo visto, de algum jornal ou revista medíocre. Algumas questões de interpretação eram tão subjetivas que um ácido ou ópio talvez resolvesse o problema. Mas não havia ácido nem ópio (a não ser o do povo – leia-se Marx, só para relaxar e gozar – leia-se Martinha). Então foi na raça mesmo. Algumas de gramática então, só para mestres na arte. Outras nem para eles. Até aí tudo bem. Cheguei na segunda prova, aí ferrou. 10 questões de matemática, coisa que há tempos eu não praticava. Até resolvi umas 3 questões. Duas certeiras, as demais, duvidosas. Aí veio a tragédia. As questões de conhecimentos afins. Muitas delas mal redigidas, com erros grotescos na sua formulação e até nas respostas ‘corretas’ ou ‘erradas’. Nunca fiz uma prova tão mal escrita como esta. Questões de português escritas erradas, de conhecimentos específicos com informações desencontradas e a subjetividade sempre pairando no ar. Me arrependi de não ter chegado bêbado no dia da prova. Certamente chegaria a algum lugar. Lembrei dos 80 réis da inscrição o que me doeu no bolso, e do palhaço que fui em me inscrever para disputar uma das duas vagas entre 68 inscritos. Talvez até passe, mas aquela prova não dá. Coisa porca! Nitidamente, foi feito por alguém ou alguns que captaram informações dispersas no mundo da informação virtual ou de certos livros por aí. Marx e João Rodrigues foram figuras em destaque na prova, mesmo sendo antagônicas. Só para terem uma idéia: Lagunas e não Laguna. Uma questão pedia qual o nome do prefeito atual de Chapecó. Coisas assim. A história ficou tomada pelas capitanias hereditárias e o momento Brasil-império. Nada de Estado Novo, modernidade, atualidade, Lula, nem nada disso. Fernando Henrique estava lá. João Rodrigues e Luis Henrique estavam também. Até Marcio Sander pintou entre as personagens desta fábula. Marx está morto faz tempo, e os iluministas choram nas trevas. Uma prova tendenciosa além de mal constituída. E o pato e seus 80 réis. A cerveja de duas semanas, ou alguns livros e/ou discos criando asas. Talvez passe, mas independente disso, a prova continua sendo uma piada, de mau gosto é certo. Não basta o golpe que já tomei do Estado quando passei em um concurso em número 22, e até hoje, já faz 5 anos aproximadamente, estou esperando a chamada. Já era! É a situação e o valor de uma profissão mal tratada no país: adivinhem qual? Agora a nova empreitada: se inscrever para ACT no Estado. Novidades: autenticar em cartório os certificados de cursos que somam pontos da disputa por um lugar ao sol, e ainda, enviar por SEDEX, pelo que sei. “Grana, grana e grana. Viva a festa capitalista! E o conhecimento que se ‘fueda’!” Se isso vai mudar? Não sei, mas a prova do domingo bem que merece uma anulação no fogo, e os que como eu acordaram cedo do sono-descanso-sagrado, uma explicação no mínimo descente por parte da prefeitura e da empresa que elaborou e redigiu a dita cuja (conheço pessoas que corrigem textos antes de serem publicados, tal como provas). Até que isso não acontece, vou continuar sendo cúmplice forçado de golpes e falcatruas do mundo oficial.

O espetáculo continua...

domingo, 25 de outubro de 2009

* alguns versos e mais nada...

Canção daquele que fabrica os espelhos

Fabrico espelhos:
Ao horror agrego mais horror.
Mais beleza à beleza.
Levo pela rua a lua de mercúrio:
O céu se reflete no espelho

E os telhados dançam
Como um quadro de Chagall.
Quando o espelho entrar em outra casa
Borrará os rostos conhecidos,
Pois os espelhos não narram seu passado,
Não delatam antigos moradores.
Alguns constroem cárceres,
Grades para jaulas.
Eu fabrico espelhos:
Ao horror agrego mais horror,
Mais beleza à beleza.

Juan Manuel Roca

* * * * *

Poema nos meus 43 anos

Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida —
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.
… de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi…
e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.

Charles Henry Bukowski

Cinema:

O incrível exército de Brancaleone é um clássico do cinema italiano que retrata com muito bom humor, um período da história da humanidade. A película tem como protagonista Brancaleone, um cavaleiro fracassado que lidera um pequeno e esfarrapado exército em uma epopeia pela Europa Medieval em busca de um feudo. Em alguns aspectos, torna-se uma paródia ao clássico da literatura Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. O filme é hilário, mesmo na reconstituição dos aspectos mais avassaladores da crise do século XIV. Monicelli nesta película, mostra dentro de um bom contexto (mesmo sendo hilário), a decadência das relações sociais no período feudal, a força da Igreja católica, o cisma do Oriente e a presença dos sarracenos. Grandes atuações, sob tudo do personagem central, o ator Vittorio Gassman, no papel do cavaleiro errante Brancaleone. Sou suspeito em dizer, pois o cinema italiano é um dos que mais gosto. Enfim, este filme é um dos melhores que já vi no gênero comédia.

(L’Armata Brancaleone, ITA 1965)
Direção: Mário Monicelli

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

só pra não deixar passar em branco...


"Eu não compreendo (...) um animal dotado de senso crítico, capaz de colher analogias, levantar-se às quatro horas da madrugada, para vir trabalhar no Arsenal de Marinha, enquanto o Ministro dorme até às onze, e ainda por cima vem de carro ou automóvel. Eu não compreendo (...) que haja quem se resigne a viver desse modo. (...) Porque aqueles homens maltratados pela vida, pela engrenagem social, cheios de necessidades, excomungados falariam tão santamente entusiasmados pelas coisas [tanques, encouraçados, aviões militares] de uma sociedade em que sofriam? Porque a queriam de pé, vitoriosa - eles que nada recebiam dela, eles que seriam espezinhados pela mais alta ou pela mais baixa das autoridades, se alguma vez caíssem na asneira de ter negócios a liqüidar com alguma delas?"

Lima Barreto

(7 de setembro de 2009)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

a volta daquele que não foi...

então...
estamos (estou) de volta. ou nunca fui...
talvez seja. mudanças no blog, na vida... em mim.
mudanças, sejam bem vindas!

Prosa:

“Nunca presto atenção às coisas, não sei para que diabo quero olhos. Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como sou vaidoso, como sou besta! Caminhei tanto e o que fiz foi mastigar papel impresso. Idiota. Podia estar ali a distrair-me com a fita. Depois finda a projeção, instruir-me vendo as caras. Sou uma besta. Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba”.

(trecho de: Graciliano Ramos - Angústia)